Educação, democracia e caderno na mão: Codap celebra 60 anos

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Estudante do Codap assiste a uma das quatro mesas de debate (Roberto Oliveira/ADUFS)
Estudante do Codap assiste a uma das quatro mesas de debate (Roberto Oliveira/ADUFS)

Enquanto o presidente da República Jair Bolsonaro (PSL) defendia em rede nacional o trabalho infantil, dezenas de estudantes do Colégio de Aplicação da UFS participavam com cadernos na mão e olhos atentos do evento “Ensino e Democracia”, em comemoração dos 60 anos do Codap, exercitando a reflexão e o pensamento crítico.

Com quatro mesas de debates ao longo de duas manhãs, na quinta (4) e sexta-feira (5), os alunos do Codap viajaram por diversos temas como educação pública, liberdade religiosa, políticas de financiamento, democracia e participação e o papel da arte, da ciência e da escola na sociedade, entre outros.

Vice-presidente da ADUFS e docente do Codap, Saulo Silva foi um dos coordenadores do evento, em parceria com professor Marcelo Sant’Anna. Os professores Romero Venâncio e Shiziele Shimada, ambos do sindicato, também compuseram a programação, assim como docentes da UFS, UNIT e do próprio Colégio de Aplicação.

Manhã de quinta (4)
Na primeira mesa do evento, Saulo Silva discutiu o papel da escola e da formação dos professores em meio aos dilemas da ciência, da moral e do trabalho, expondo as transformações pelas quais passa a sociedade nas mais diversas esferas, a exemplo dos recentes cortes e ataques ao financiamento público da educação. Recentemente, o vice-presidente da ADUFS já havia abordado o tema em artigo publicado no site do sindicato. (Leia aqui).

Depois, o professor Marcos Ribeiro, do Departamento de Filosofia, tratou da formação da Constituição Federal e seu pano de fundo. Trabalhando com autores clássicos como Thomas Hobbes, ele falou sobre as correntes filosóficas que originaram a ideia de República, os conceitos de indivíduo e de igualdade e traçou um paralelo com as desigualdades e disputas do jogo democrático.

Por fim, o professor Florisvaldo Rocha, do Departamento de Educação, abordou as várias funções do livro didático - organizador de conteúdo, planificador de aula, mercadoria que pesa no bolso das famílias e um portador também de ideologia. Qual a função do livro didático? Como são retratados o índio, o negro e a mulher? "Os livros são recheados de verdades, valores e ideias. Tudo isso é fruto de disputa", explicou.

Na segunda mesa, Marcelo Sant'Anna, do próprio Codap, falou sobre educação e liberdade de crença, expondo exemplos de intolerância não apenas no meio educacional, como também com as religiões não dominantes nem hegemônicas. "Não vivemos em uma época de liberdade de crer e descrer", argumentou.

Kellen Muniz, professora da Unit e ex-estudante do Codap, relatou sua experiência à frente da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da OAB. Ela resgatou como se fortaleceu no Brasil uma teologia política, da articulação entre poder político e religião, como na Igreja Universal do Reino de Deus - que conta com partido político, uma emissora de televisão e uma extensa rede de rádios. E também expôs diversos casos recentes de ataque à liberdade de crença, principalmente aquelas de matriz africana.

Manhã de sexta (5)
Romero Venâncio e Shiziele Shimada, ambos da diretoria da ADUFS, abriram os trabalhos na manhã no segundo dia de debates. Enquanto a professora Shiziele focou na formação de professores e em práticas educativas, o professor Romero Venâncio fez um panorama do processo democrático brasileiro, desde o fim da ditadura na década de 80 até o golpe que destituiu Dilma Rousseff da Presidência três anos atrás.

O diretor da ADUFS analisou algumas das medidas autoritárias dos primeiros meses do governo Bolsonaro e o fortalecimento das lutas de alguns setores sociais, a exemplo das mulheres, dos estudantes, dos negros e dos indígenas – que impõem resistência democrática ao atual governo. "Quem tem que trabalhar aqui sou eu, lugar de criança é na escola!", defendeu, sendo muito aplaudido pelos adolescentes num dos pontos altos do evento.

No último debate do evento, o professor Luigi Oliveira, também da UFS, expôs as políticas de financiamento da educação, especialmente a experiência no Fies. Segundo ele, após um primeiro momento de expansão, o programa passa por uma fase de contingenciamento devido ao alto nível de inadimplência e o consequente aumento das mensalidades.

Em abril desse ano, por exemplo, 60% dos estudantes não conseguiam mais pagar o Fies no Brasil. O mesmo caminho, ele mostrou com dados de pesquisas científicas, aconteceu nos EUA e na Inglaterra – países onde o endividamento estudantil tornou-se praticamente impagável.

Leomir Hilário, do Departamento de Psicologia, abordou as diferentes "naturezas" da educação em contextos ora de crescimento econômico ora de recessão. Da promessa integradora (relacionando educação, trabalho e democracia) à desintegração dessa promessa (impondo a noção de empregabilidade do sujeito, com valores como flexibilidade e versatilidade, rumo à precarização do trabalho).

Na última fala do evento, o professor do Codap e organizador do evento Ewerthon Vieira refletiu sobre arte e ciência em tempos de crise. Se a arte foi encarada como a sublimação da vida, a ciência se propõe justamente ser o esclarecimento dela com o projeto iluminista. Ele resgatou a ideia de uso social das ciências, que se transformam em campo de disputa de modelos e projetos de sociedade. Por fim, passou ainda pelo conceito da sociedade do espetáculo, onde tudo vira mercadoria, do filósofo francês Guy Debord.

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