ARTIGO
Petróleo, moedas e disputa hegemônica: o confronto invisível por trás da guerra entre EUA/Israel x Irã.
Olinto Silveira Alves Filho
Professor aposentado do DEE/UFS
13 de março de 2026
O conflito, muitas vezes “camuflado”, outras escancarado, pelo controle das fontes e rotas energéticas, pela sub-rogação do dólar e pelo domínio geoeconômico, financeiro e político global, expresso na atual guerra entre Israel e Estados Unidos contra o Irã, pode ter consequências catastróficas para a humanidade e/ou resultar na demolição definitiva do império americano, que, diga-se de passagem, se encontra em estado de decomposição, embora não necessariamente morto e sepultado.
A mídia corporativa ocidental, defensora incondicional do imperialismo estadunidense, nos últimos 80 anos, tem apresentado os conflitos que frequentemente incendeiam os países do Golfo Pérsico como choques entre fanáticos religiosos, povos bárbaros e tribais (disputando territórios) ou mesquinhas rixas políticas regionais. Todavia, quando analisados a partir da perspectiva metodológica do materialismo histórico, esses embates denunciam as contradições do imperialismo anglo-americano que instituiu uma nova ordem mundial baseada em normas e regras.
No entanto, presentemente, essa arquitetura geoeconômica (e política) está se estraçalhando; por um lado, por conta da implantação do regime de acumulação financeirizado, que prioriza a especulação financeira em detrimento da produção material de bens e serviços; por outro, por causa do incontornável deslocamento do eixo econômico-financeiro que está sendo galvanizado pelos países asiáticos, nomeadamente pela China.
Recordando um pouco de história, sabe-se que, ao final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o novo império — o americano — e seu aliado, o britânico, imprimiram funcionalidade às transações do comércio internacional, obtendo a hegemonia da geopolítica internacional. Antes disso, porém, somente com a conclusão dos Acordos de Bretton Woods, em 1944, o arcabouço jurídico-político e institucional da nova ordem mundial — portanto baseada em regras — consolidou-se.
Nesse contexto, estabeleceu-se um regime de câmbio fixo, segundo o qual a conversibilidade das moedas estrangeiras em ouro se daria em um valor fixo. Sendo assim, no mercado internacional, o grama de ouro fixou-se ao preço de US$ 35.
Todavia, o mais importante compromisso assumido pelas nações em Bretton Woods foi o controle dos fluxos internacionais de capital. Além disso, ainda nesse cenário, foram criadas duas das principais instituições financeiras do novo império: o Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BIRD) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Essas instituições internacionais, juntamente com a ONU e, um pouco mais tarde, com outras organizações, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), a Corte Internacional de Justiça (CIJ), o Tribunal Penal Internacional (TPI) etc., forjaram todo um arcabouço jurídico-político e financeiro que daria suporte às normas e regras de funcionamento dos países no tabuleiro da geoeconomia e da geopolítica internacional, sob a égide do império americano.
Entre os anos de 1945 e 2022, apesar das contradições e das turbulências econômicas, financeiras e belicistas dessa velha arquitetura internacional, os Estados Unidos navegaram soberanamente em águas benéficas aos seus propósitos estratégicos. Entrementes, após selar uma inquebrantável parceria com a China (segunda maior potência econômica, financeira e tecnológica do mundo), a Rússia desmantelou, de uma vez por todas, o monopólio da guerra — até então atributo exclusivo do império estadunidense — ao invadir a Ucrânia, o que muitos interpretaram como um presságio do fim da hegemonia americana no cenário internacional.
Donald Trump, presidente dos EUA e candidato a imperador/ditador absoluto do mundo, desde o seu primeiro governo surge como uma reação a todo “esse estado de coisas” (tal qual seu homólogo aqui no Brasil, Jair Messias Bolsonaro), apresentando-se como “anti-sistema” — atacando e desacreditando todas as instituições internacionais anteriormente mencionadas. Assim, o homem mais citado nos arquivos de Jeffrey Epstein busca criar uma “nova ordem internacional, caótica e avessa às regras”, cuja única norma funcional seria o poder belicista da força das armas, da guerra e da destruição de nações e vidas humanas. Conforme ele mesmo vociferou, a única ética válida neste mundo deve ser a da sua inabalável vontade, suas determinações pessoais e idiossincráticas.
Contudo, na atual conjuntura internacional de caos e guerras intermitentes — podendo escalar para uma guerra global termonuclear —, o propósito estratégico dos EUA é neutralizar a Rússia e barrar o crescimento econômico da China no comércio internacional. Para tanto, busca criar restrições e impedir que os países comercializem e façam acordos de infraestrutura econômica com a China, já que esta é a única nação que de fato ameaça a hegemonia americana no cenário geopolítico mundial.
Nesse sentido, os EUA têm imposto sanções econômicas, tarifas alfandegárias exorbitantes e chantagens de invasão (ou guerra) contra os países que transacionam com a China — aqueles que são compradores de bens manufaturados chineses e fornecedores de insumos produtivos, como é o caso da energia (petróleo e gás). Os exemplos mais recentes são a Venezuela e o próprio Irã — lembremos que a China, desde 2025, tem comprado cerca de 90% das exportações de petróleo do Irã.
Nesse contexto, os ataques simultâneos de Israel e Estados Unidos ao Irã — uma guerra não provocada —, com a decapitação (assassinato) do líder supremo Ali Khamenei, justamente no momento em que estava se processando a construção de um acordo mediado por Omã, no qual o Irã havia aceitado boa parte das propostas americanas e israelenses para o seu programa nuclear, deixaram patente que o objetivo imediato dos EUA era forçar uma mudança de regime (e destruir o Irã, como fez com a Síria).
Por sua vez, o propósito estratégico de Israel era — e continua sendo — a destruição e colonização do país dos aiatolás, abrindo caminho para o projeto sionista da construção do “Grande Israel”. Esse projeto corresponderia a uma área territorial delimitada pelo Rio Jordão e pelo Mar Mediterrâneo, que inclui o território palestino da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, mas também as Colinas de Golã.
Sendo assim, os países do Golfo Pérsico tornaram-se elementos primordiais da arquitetura estratégica global. De fato, a área do Golfo concentra algumas das maiores reservas de petróleo e gás do mundo e alberga corredores marítimos fundamentais para o transporte de energia, como o Estreito de Ormuz. Dessa forma, aqueles que controlarem as rotas do petróleo e do gás deterão o monopólio de uma parte decisiva e estrutural da economia mundial.
O fato é que, nos últimos 30 anos, o monopólio absoluto do império americano passou a sofrer pressões e crescentes ameaças, principalmente a partir da ascensão econômica e tecnológica da China no contexto da crise de 2008, que reconfigurou não só os mercados globalizados, mas também a geografia da demanda energética mundial.
Com efeito, a China transformou-se na “fábrica do mundo” e Pequim tornou-se o maior importador de petróleo do planeta, passando a estabelecer estratégias direcionadas não apenas para assegurar seu abastecimento energético, mas também para a criação de redes logísticas e financeiras capazes de minimizar sua vulnerabilidade diante da arquitetura econômica dominada pelo Ocidente.
Ao mesmo tempo, a China, juntamente com os países do BRICS (lembrando que o Irã é membro pleno desde 2024), tem tomado medidas voltadas à diversificação monetária no comércio internacional de energia. Nesse sentido, vem buscando utilizar moedas alternativas ao dólar em algumas transações internacionais — especialmente em acordos com países asiáticos e grandes produtores de petróleo. Trata-se de movimentos ainda incipientes de um processo frequentemente descrito como “desdolarização”.
Esse processo, ao se intensificar, provocou a fúria violenta e belicista americana. Principalmente quando, em um primeiro momento, Xi Jinping conseguiu o que pareceria impossível até então: fazer um acordo diplomático entre a Arábia Saudita e o Irã, levando estabilidade para a região do Golfo.
Em um segundo momento — e essa foi a jogada estratégica mais brilhante do dirigente máximo do Partido Comunista Chinês —, Pequim passou a negociar a compra de petróleo em sua própria moeda, o yuan, diminuindo a dependência histórica do dólar americano.
Essa articulação ganhou expressiva efetividade a partir do ano de 2022, quando Xi Jinping e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, fortaleceram seus laços bilaterais e estratégicos e selaram um acordo para compra de petróleo saudita pela China pago em yuan — quebrando os fundamentos do sistema do “petrodólar”.
Enfim, a ignorância, o preconceito e a arrogância dos impérios ocidentais — em particular o americano — subestimaram a República Islâmica do Irã. O povo persa — hoje composto majoritariamente por xiitas e, em menor número, por sunitas — configura uma das civilizações e culturas mais antigas do mundo, surgida há aproximadamente cinco mil anos.
Inadvertidamente, por meio de uma traiçoeira e covarde ação belicista, batizada de “Fúria Épica” pelos EUA e “Rugido do Leão” por Israel, ao promover ataques aéreos e bombardear inicialmente uma escola primária, Shajareh Tayyebeh — lançando míssil Tomahawk —, onde estudavam apenas meninas adolescentes, numa área civil da cidade de Minab, no sul do Irã, causando a morte de aproximadamente 170 meninas e, em seguida, ao matar Ali Khamenei, a cúpula assassina imperialista acreditava que o povo iraniano sairia às ruas, chocado e acovardado, pedindo o fim do regime.
Surpreendentemente, contrariando as expectativas dos belicistas ocidentais, não mais que uma hora depois o Irã reagiu, contra-atacando ao lançar uma torrente de mísseis e drones, bombardeando bases militares americanas em vários países do Golfo: Iraque, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Arábia Saudita e Jordânia.
Essa guerra entre EUA/Israel e Irã, que os estrategistas americanos e israelenses pensaram ser de curtíssimo prazo — entramos na segunda semana, perfazendo hoje, 13 de março, 14 dias de conflito —, tem levado analistas comprometidos com a realidade dos fatos a concluírem que, apesar da destruição de boa parte do Irã e do grande número de iranianos mortos (próximo de mil e quinhentos), os EUA e Israel estão sendo derrotados.
Primeiro porque não conseguiram seus objetivos de mudança de regime; segundo porque o Irã está causando estragos avassaladores nos países do Golfo onde os Estados Unidos mantêm bases militares e, particularmente, em Israel, que ficou atônito ao assistir às enxurradas de mísseis e drones penetrarem suas defesas aéreas.
De fato, o Domo de Ferro tem se mostrado, desde a chamada “Guerra dos 12 Dias”, ocorrida entre 13 e 24 de junho de 2025, bastante ineficiente, apesar de Trump e Netanyahu, à época, cantarem vitória ao afirmar que haviam destruído completamente “as instalações nucleares iranianas e seus arsenais de mísseis”.
No caso, muitos radares detectores de mísseis israelenses estão sendo “cegados” pelos ataques iranianos, de modo que os mísseis e drones iranianos estão cada vez mais — e em grande número — penetrando o território de Israel e atingindo sua infraestrutura de defesa.
Todavia, apesar da censura e do controle da mídia israelense, bem como da desativação de aplicativos e redes sociais (a exemplo do TikTok), as informações que chegaram por vias alternativas indicam que os mísseis iranianos estão causando grande destruição em Israel, principalmente nas cidades de Tel Aviv e Haifa.
Um balanço parcial — ainda impreciso — desta guerra mostra que pelo menos 27 bases americanas foram bombardeadas na região do Golfo; boa parte dos radares de longo alcance foi destruída; e prédios da CIA (Agência Central de Inteligência) e instalações do Mossad (Instituto de Inteligência e Operações Especiais de Israel) também foram atingidos.
Já existem relatos de que Benjamin Netanyahu (e Donald Trump) está buscando alguma forma de pedir arrego — uma espécie de trégua — e sair da guerra, claro, declarando aos quatro cantos do mundo ocidental que saíram vitoriosos.
No canal do YouTube “Pepe Café”, o jornalista e analista de geopolítica internacional Pepe Escobar afirmou que representantes americanos entraram em contato com Turquia, Catar e Omã pedindo que intercedessem junto ao governo iraniano a fim de conseguir um cessar-fogo imediato e negociado.
A Guarda Revolucionária respondeu que “não vai ter diplomacia, não vai ter cessar-fogo”. Segundo a posição divulgada, essa guerra só vai parar se EUA e Israel se renderem, aceitando as condições que Teerã ditar, entre as quais a retirada de todas as bases militares americanas do Golfo Pérsico.
Portanto, neste momento, quem não quer encerrar a guerra é o Irã.
Por que será?
