ARTIGO
Professor Rosemiro Magno: de peão de trecho a professor emérito
Por Cicero Cunha Bezerra (DFL/UFS/CNPq)
Início esse pequeno texto observando que não tenho a pretensão de fazer uma homenagem, porque é disso que se trata, com fidelidade histórico-biográfica ao professor Rosemiro Magno da Silva. Essa tarefa exigiria muito esforço em reunir uma vida que eu classifico como homérica, no sentido de uma grande aventura marcada por desafios, conflitos e digna de ser contada em um livro próprio para grandes hi(e)stórias. Conheci Rosemiro por volta de 1999, quando ministrei aulas de Introdução à filosofia em um belo projeto desenvolvido entre a Universidade Federal de Sergipe (UFS) e a Secretaria de Estado da Educação (SEDUC), intitulado PQD (Programa de Qualificação Docente).
Viajávamos para os interiores do Estado durante os fins de semana para, como o próprio título do projeto expressa, qualificar professores das redes estaduais e municipais de ensino. Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida como profissional da educação que, inclusive, virou dedicatória em um artigo que escrevi intitulado "Paideontologia: Paulo Freire y la educación como decisión en ser más", parte do livro que organizei junto ao Centro de Estúdios Ibéricos y Americanos de Salamanca (Espanha-2001). Por que estou me reportando a esse fato? Foi nesse contexto de formação educacional que encontrei, durante os intervalos das aulas, no famoso cafezinho, o professor Rosemiro Magno.
Nossos contatos eram curtos, mas sempre tínhamos discussões interessantes sobre pensadores e temas que perfazem as interfaces entre filosofia e sociologia. Um, em especial, dava a tônica: Karl Marx. Quem conhece Rosemiro Magno sabe da sua dedicação e admiração aos estudos sobre o pensamento marxista. Herdeiro da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Rosemiro foi orientado pelo sociólogo, historiador e escritor Maurício Tragtenberg, um dos grandes intelectuais brasileiros, que o conduziu em um dos mais importantes estudos sobre o conflito agrário no Brasil: "A luta dos posseiros de Santana dos Frades" (UFS:2002). Esta dissertação, convertida em livro, prefaciado por Dom José Brandão de Castro, foi defendida entre os anos de 1985 e 1986 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e figura, como se pode constatar em uma busca rápida na Internet, em diversos trabalhos acadêmicos como referência sobre o tema do conflito de terras em Sergipe. Sobre esse trabalho destaca Dom José Brandão: "Nossos parabéns ao professor Rosemiro. Seu livro é uma homenagem a esses homens do campo que, assim, vão sair do anonimato e merecer de todos nós o respeito a que fizeram jus".
Outro livro de relevância e referência para a temática é "Assentimento de Pequenos Produtores Rurais em Sergipe: 1945 - 1992" (SAGRI, 1995). É importante destacar seus estudos, durante o mestrado, como aluno de Florestan Fernandes que, ao regressar do exílio, ministrou conferências sobre Durkheim e Weber. Como professor de Sociologia na UFS, foi presidente da comissão de organização para a criação do curso de Ciências Sociais, vindo a compor o primeiro grupo de professores do novo Departamento, em que atuou, até a sua aposentadoria, nas disciplinas Sociologia I e II, Fundamentos de Sociologia e Sociologia do Desenvolvimento Econômico.
Mas Rosemiro não é só acadêmico; na verdade, sempre destaca, em nossas rodas de conversas, no geral regadas a cerveja, não ser acadêmico, mas peão de trecho. Um peão que saiu da pequena cidade de Ponta de Pedras/PE para sobreviver grande parte da sua vida na pauliceia desvairada e, posteriormente, atracar em Sergipe, onde permanece até os dias de hoje, quando completa 85 anos de idade (08/04/2026). Em São Paulo, foi da força militar e bombeiro em pleno regime ditatorial, mas também foi, além de fundador de um diretório que cobria os bairros de Santa Cecília e Campos Elísios, onde visitou diversos cortiços habitados por nordestinos, ator de teatro, encarnando a figura de Chicó em o Auto da Compadecida, tendo inclusive, posteriormente, a oportunidade de dizer, pessoalmente, ao escritor Ariano Suassuna a honra e alegria de ter encenado um dos personagens mais marcantes da literatura brasileira.
Entre uma noite e outra, Rosemiro conversou, em bares, com músicos como Papeti e compositores como Paulo Vanzolini e Hilton Acioli. Uma das grandes vantagens de ter sido bombeiro — confidenciou-me certa vez — foi tirar serviço em todos os teatros de São Paulo e, com isso, assistir, de graça, a grandes espetáculos. Alguns episódios de sua vida, ocorridos entre a farda e a boemia, guardo como recordação bem-humorada de um indivíduo mambembe, equilibrista de circunstâncias perigosas, como o treinamento na selva amazônica, e divertidas, como suas participações nas atividades iniciais do Partido dos Trabalhadores (PT) em Sergipe, atuando como “guarda-costas” — afinal, Rosemiro era o único com treinamento e habilidade no porte de arma — do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva em suas andanças pela região, vivenciando situações inusitadas, como a de soltar um rojão e acertar “os peitos” de um membro do grupo.
Como capoeirista, aluno de mestre Suassuna, Rosemiro aprendeu a superar desafios com gingado e mandingagem. Essa aprendizagem o fez pesquisador da história da capoeira, tendo recebido os prêmios "Notório saber popular" (Salvador, 2018) e "Berimbau de ouro" (Salvador, 2023). Autor de artigos e livros publicados, além de um trabalho, ainda inédito, sobre o levante dos Malês na Bahia, Rosemiro segue suas pesquisas movido pela força que ergue coisas belas. Casado com a professora doutora Tânia Elías Magno da Silva, Rosemiro é pai de três filhas e atualmente mantém sua veia reflexiva, redigindo pequenas crônicas com sabor memorialístico, como a última, a mim enviada, que tomo a liberdade de publicá-la como complemento a essa pequena e fraterna homenagem ao peão de trecho que, em 24/04/2002, teve o merecido reconhecimento de professor emérito da Universidade Federal de Sergipe.
"Histórias de Caserna
(Por Rosemiro Magno)
“Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la.”
O pensamento é atribuído a Karl Marx — ou algo parecido. A frase não deve estar citada corretamente; não tenho memória de elefante. Vamos ao que interessa.
No dia 31 de março de 1964, este que escreve estas raquíticas linhas, na condição de “peão de trecho” ou de “baiano”, como dizia o preconceito paulista de então, servia na 3ª Companhia do Corpo de Bombeiros da antiga Força Pública do Estado de São Paulo. Já tinha concluído o curso primário e me formado em datilografia. Isso se deu em São Luiz de Cáceres, na fronteira do Brasil com a Bolívia, onde era mão de obra militar engajada no 2º Batalhão de Fronteiras.
De modo que aquele curso primário, feito em um único ano, e o curso de datilografia melhoraram minha condição de peão. Não vou entrar em detalhes.
Na 3ª Companhia do Corpo de Bombeiros, exercia a função de datilógrafo do então comandante. O expediente começava ao meio-dia e terminava às 18 horas, sem contar as escalas de serviço.
Antes, quando servi nos serviços de fundos da citada Força, tive contato com a Associação dos Cabos e Soldados da Força Pública, liderada pelo soldado Vernek, que, no dia do golpe, fora preso e se tornou uma das vítimas da ditadura militar.
Eu, este que vos fala, não tinha nenhuma participação política na citada associação. Todavia, não era nenhum babaca alienado. Já decorava Navio Negreiro, de Castro Alves, embaixo de um galho de sapotizeiro, cujo tronco ficava do outro lado da cerca que separava o quartel do quintal do Museu do Ipiranga.
Sob olhares críticos de soldados e superiores hierárquicos, recitava o poema e exercitava a impostação de voz. Esse ato de estudar incomodava muito um soldado negro baiano, que não se cansava de me advertir:
“Praça, tu vais ficar doido. Quem estuda muito fica doido.”
É aquela velha história: quando os de baixo na escala social assumem o discurso dos dominantes. Aquele colega de trabalho e de sofrimento não admitia que um seu igual se diferenciasse dos demais:
“Tu vais ficar louco...”
Voltemos ao 31 de março de 1964.
Na época, os soldados da Força Pública, quando fardados — particularmente os do Corpo de Bombeiros, que eram o cartão de visita da Força —, não pagavam passagem nos transportes coletivos da cidade.
Eu morava na Baixada do Glicério, em um pequeno apartamento. Cumpria minha rotina semanal. Naquele fatídico dia, quando desci do ônibus — cujo ponto ficava do outro lado da rua —, um soldado estava me esperando. Nunca o tinha visto antes, não sabia em que unidade servia. Nunca mais o vi.
Esse soldado já era mais maduro, aparentando estar perto dos quarenta anos.
Ao descer do ônibus, ele me pegou pelo braço e foi dizendo:
“Tem um esquema para prender eu e você. Não abra a boca. Sou pai de família e tenho filhos para criar.” E não largou do meu braço.
O prédio da 3ª Companhia tinha dois sanitários: um embaixo e outro no primeiro andar. O soldado me enfiou no do térreo e não me deixava falar.
“Vão nos matar.”
Só saímos de dentro do sanitário no fim do expediente.
Tive que engolir em seco para não perder a vida.
O tempo foi passando, e a rotina dos quartéis foi se normalizando. A ditadura militar produzindo suas vítimas, e alguns militares e policiais praticando abusos de autoridade.
Histórias de caserna — sabem bem os que as vivenciaram. Este velho peão de trecho sabe algumas. Mas, como disse acima, minha pena é seca, metálica, quase raquítica. E mais: relembrar o passado é sofrer duas vezes.
Eis por que digo:
Meu hoje é hoje,
Meu passado já era,
Meu amanhã, quem sabe?
A vida é passageira — não passa disso".
Acrescento somente um detalhe como informação ao(à) leitor(a) desse meu artigo: a última linha da crônica escrita por Rosemiro Magno foi construída, entre mim e ele, em uma mesa de bar, no bairro Suissa, em um dia que não recordo, mas que foi extremamente significativo pelo teor existencial da afirmação: "a vida é passageira - não passa disso". Parabéns, mestre Rosemiro, pelos seus 85 anos e que a vida siga fluindo como as águas do mar de Iracema.
