CONJUNTURA INTERNACIONAL

Notícias

Cada vez menos disfarçada, a disputa entre EUA e China pela hegemonia internacional adquire agora sua face mais violenta com os ataques belicistas de EUA/Israel contra o Irã. Esses acontecimentos se apresentam, de fato, como um sintoma da decadência do império americano que, em seu desespero, ameaça fazer uso de artefato termonuclear, através do seu principal vetor: o sistema sionista israelense.

 

Historicamente, há momentos em que diferentes dimensões do poder — militar, econômica, política, tecnológica ou mesmo simbólica — deixam de operar de forma relativamente camuflada, passando a revelar, de maneira simultânea, suas mais profundas contradições. Nesse sentido, o sangrento e covarde genocídio perpetrado por Israel/EUA em Gaza contra o povo palestino — diante do qual a “civilizada” União Europeia, com seu mais insofismável “Parlamento Europeu”, suas instituições, governantes e a grande mídia corporativa fecharam os olhos, quando não se fizeram cúmplices —, e a atual guerra no Golfo Pérsico, envolvendo os Estados Unidos, Israel e Irã, insere-se precisamente nesse tipo perverso de dinamismo histórico.

O que se apresenta como um mero conflito regional revela, na verdade, um processo mais amplo e profundo: a progressiva decomposição das estruturas do imperialismo estadunidense e sua tentativa, cada vez mais desesperada, de preservar sua estrutura de poder e sua até então inabalável hegemonia global.

Desde os acordos de Bretton Woods e o fim da Segunda Guerra Mundial, a hegemonia americana foi sustentada não apenas pela superioridade militar, mas por um conjunto articulado de fatores: domínio econômico-financeiro global, controle das instituições internacionais, superioridade tecnológica e construção de narrativas legitimadoras.

No campo bélico, essa hegemonia também se manifestou na crença “quase mística” de que seus sofisticados avanços tecnológicos na área militar seriam capazes de garantir absoluta proteção para si e para seus aliados. Um exemplo emblemático dessa concepção é o “Domo de Ferro”, concebido não apenas como um dispositivo tecnológico, mas como expressão de uma ideologia de impenetrabilidade do espaço aéreo israelense.

Todavia, na atual guerra com o Irã, o que se observa é o progressivo esvaziamento desse arquétipo. Inicialmente, a estratégia iraniana baseava-se na saturação do sistema de defesa por meio do emprego massivo de drones kamikazes e mísseis de menor sofisticação. Em um segundo momento — já após a terceira semana do conflito —, passou a empregar sistemas mais avançados, como os mísseis da família Fattah.

Faz-se necessário abrir aqui um parêntese para evidenciar a fragilidade da suposta superioridade tecnológica do Ocidente imperial. Sendo assim, mesmo após quase 46 anos de sanções impostas pelos Estados Unidos ao Irã, a engenharia bélica iraniana — frequentemente subestimada — tem conseguido desenvolver sistemas avançados de mísseis com velocidades superiores à do som, como os da família Fattah.

Vejamos:

Fattah-1 (alcance de aproximadamente 1.400 km e velocidade hipersônica — Mach 13 a 15); Fattah-2, com maior capacidade de contornar obstáculos e potencial ampliação de alcance (em torno de 1.500 km ou mais); e o Fattah-3, que, além dessas características, apresenta aumento ainda mais significativo de alcance e capacidade de evasão, sendo projetado para superar os sistemas antimísseis mais avançados do mundo.

Adicionalmente, a família Fattah possui um diferencial não convencional: trata-se de mísseis com trajetórias aleatórias (descrito como estocásticas), ou seja, com capacidade de alterar seu percurso em alta velocidade, tornando-se imprevisíveis e de difícil detecção pelos sistemas de defesa. Dessa forma, a combinação entre quantidade, velocidade (super ou hipersônica) e capacidade de manobra impõe uma pressão para a qual mesmo sistemas multicamadas, como o “Domo de Ferro”, não foram projetados.

Em um cenário de saturação, a defesa deixa de ser absoluta e passa a ser probabilística — e, portanto, vulnerável. Vale notar que, até aqui, estamos tratando de mísseis e foguetes de curto e médio alcance; entretanto, especula-se que o Irã já disponha de mísseis supersônicos de longo alcance, capazes de atingir não apenas a Europa, mas também o território americano.

Outro elemento particularmente crítico nessa guerra diz respeito ao custo monetário dos artefatos bélicos. A interceptação de mísseis ou drones simples iranianos (como os kamikazes) é extremamente onerosa. Em contraste, o drone Shahed-136 — cuja fabricação utiliza componentes eletrônicos civis, fibra de vidro e motores simples — possui custo relativamente baixo, variando entre US$ 20 mil e US$ 50 mil. Já a utilização de um míssil Tamir, do “Domo de Ferro”, para interceptação pode alcançar cerca de US$ 5 milhões por unidade.

Ao projetarmos esse cenário para um eventual conflito de maior escala — particularmente em sua dimensão econômica e estratégica entre EUA e China — tornam-se ainda mais evidentes os múltiplos fatores que alimentam essa tempestade global. De um lado, os Estados Unidos buscam sustentar sua posição hegemônica, ainda fortemente ancorada no sistema financeiro internacional, no qual o dólar (lastreado em petróleo) exerce o papel de moeda de reserva global. No entanto, essa posição vem sendo crescentemente corroída: tanto pelos acordos no âmbito dos BRICS, que ampliam o uso de moedas locais; quanto por iniciativas como a do Irã, que passou a exigir o uso da moeda chinesa (yuan) em determinadas transações estratégicas para o tráfico de navios no Estreito de Ormuz.

Neste momento, faz-se necessário evidenciar alguns dados da conjuntura econômica dos Estados Unidos. Com efeito, a dívida pública norte-americana (próxima dos 40 trilhões de dólares), seus recorrentes déficits orçamentários (também na casa de trilhões) e a expansão contínua dos gastos militares indicam um modelo cada vez mais dependente da ampliação financeira para sustentar sua capacidade de projeção global.

Dentro desse panorama, salta aos olhos um elemento extremamente agravante: o uso recorrente do império americano do sistema financeiro como instrumento de coerção política — por meio de sanções, bloqueios e congelamento de ativos soberanos. Ao transformar o dólar e a arquitetura financeira internacional em uma arma geopolítica, os Estados Unidos obtêm ganhos táticos de curto prazo, mas produzem efeitos colaterais relevantes no médio e longo prazo: aumento da desconfiança, fortalecimento de circuitos paralelos e aceleração do processo de desdolarização.

Nesse contexto, a atual e tergiversada política comercial estadunidense — marcada pela imposição de tarifas inclusive contra aliados — contribui para ampliar tensões e incertezas no sistema internacional. Medidas concebidas como proteção acabam sendo internalizadas na forma de aumento de custos e redução da renda real, afetando a própria população americana e gerando fricções com parceiros estratégicos.

Esse ambiente externo de crescente instabilidade conecta-se a um cenário interno igualmente tensionado. A polarização política nos Estados Unidos, intensificada nos últimos anos, revela fissuras profundas no tecido institucional e social. Controvérsias envolvendo figuras centrais do poder político, amplamente expostas na mídia, contribuem para o desgaste simbólico e para a erosão da legitimidade do sistema. Soma-se a isso o aumento das tensões entre entes federativos, disputas institucionais e episódios recorrentes de instabilidade social.

Esse conjunto de fatores não pode ser dissociado do histórico de intervenções norte-americanas ao longo de décadas em diversas regiões do Planeta. Do Golfo Pérsico à América Latina, passando pela Ásia Central e pela África, a política externa dos Estados Unidos foi (e continua sendo) marcada por intervenções militares, sanções, golpes de estado e tentativas de mudança de regime. Em muitos casos, os resultados foram desastrosos para as populações locais, como podem ser evidenciados, apenas nos marcos do século XXI, no Afeganistão, no Iraque e na Síria.

Nesse cenário, a ascensão da China no tabuleiro geopolítico global configura-se como um dos principais desafios à hegemonia americana. Diferentemente da estratégia baseada predominantemente na coerção militar, a China tem ampliado sua influência por meio de instrumentos econômicos, tecnológicos e de infraestrutura, construindo redes de interdependência que funcionam como alternativa sistêmica. Paradoxalmente, muitas das ações e reações dos Estados Unidos acabam contribuindo para ampliar o espaço relativo de atuação chinesa.

O processo em curso ilusoriamente não aponta para um colapso abrupto, mas para uma transição gradual e cumulativa. No entanto, a guerra no Golfo Pérsico sugere a possibilidade de inflexões mais bruscas. Ela evidencia que superioridade tecnológica não implica invulnerabilidade, que poder financeiro pode gerar reações adversas e que capacidade de intervenção não garante capacidade de controle absoluto.

Talvez o aspecto mais relevante dessa quadra histórica seja o esgotamento de uma crença ideológica: a de que seria possível dominar o sistema internacional de forma relativamente estável a partir de um único centro de poder, no caso, o poder imperial norte-americano. Mesmo porque estamos nas bordas de um vórtice efervescente, tentando surfar através de desfiguradas e indecifráveis ondas de um cenário cada vez mais complexo; marcado por disputas múltiplas, estratégias assimétricas e incertezas estocásticas.

Entre a saturação dos sistemas de defesa e a saturação das próprias estruturas de poder, está sendo aceleradamente gestado um mundo de radical transmutação. De fato, como consequência da provável derrocada do poderio hegemônico estadunidense, juntamente com a eliminação de todas as condições que o forjaram e o sustentaram desde os anos de 1945, está em curso à convergência de duas possibilidades: o império americano é derrotado (como seus homólogos históricos, por exemplo, o império britânico); ou vivenciaremos uma catástrofe termonuclear. Quem viver verá.

Veja também